É uma das conversas mais frequentes que um contador tem: o empresário olha a DRE, vê lucro de
R$ 40 mil no trimestre, olha o extrato bancário e encontra R$ 3 mil. A pergunta que vem em seguida
é sempre a mesma, e é legítima: “cadê o dinheiro?”.
Dois relatórios, duas perguntas
A confusão some quando fica claro que cada relatório responde a uma pergunta diferente:
- DRE (Demonstração do Resultado do Exercício) responde: a operação deu
lucro? Ela mede desempenho — se o que a empresa vendeu, no período, cobriu o que ela
consumiu para vender. - Fluxo de caixa responde: entrou e saiu quanto dinheiro? Ele mede
liquidez — se há recurso disponível para pagar as contas de amanhã.
Uma empresa pode ser lucrativa e quebrar por falta de caixa. Pode também ter caixa cheio num mês
de prejuízo. As duas situações são normais e as duas são perigosas se você só olha um dos
relatórios.
Competência e caixa: a raiz da diferença
A DRE é montada no regime de competência: a receita é reconhecida quando a venda
acontece, não quando o cliente paga. A despesa é reconhecida quando é consumida, não quando é
quitada.
O fluxo de caixa segue o regime de caixa: só registra o que efetivamente entrou
ou saiu da conta, na data em que aconteceu.
Vender em março e receber em maio produz exatamente esse descolamento: a DRE de março mostra a
receita, o caixa de março não vê nada, e o caixa de maio recebe um dinheiro que a DRE já tinha
contabilizado dois meses antes.
Um exemplo com números
Uma empresa de serviços fecha março assim:
- Vendeu R$ 100 mil, tudo faturado para receber em 60 dias.
- Teve custos e despesas de R$ 70 mil, pagos à vista no próprio mês.
- Pagou R$ 20 mil de parcela de um empréstimo, sendo R$ 3 mil de juros e R$ 17 mil de
amortização do principal.
| Item | DRE de março | Caixa de março |
|---|---|---|
| Receita da venda | + R$ 100.000 | R$ 0 (recebe em maio) |
| Custos e despesas | − R$ 70.000 | − R$ 70.000 |
| Juros do empréstimo | − R$ 3.000 | − R$ 3.000 |
| Amortização do principal | não entra na DRE | − R$ 17.000 |
| Resultado | + R$ 27.000 de lucro | − R$ 90.000 no caixa |
Os dois números estão certos. A empresa teve um março lucrativo e um março financeiramente
péssimo. Quem olha só a DRE comemora; quem olha só o caixa entra em pânico. Quem olha os dois
entende que o problema não é margem — é prazo de recebimento.
Como se cria lucro no papel e caixa vazio
As causas mais comuns, em ordem de frequência:
- Prazo de recebimento maior que o de pagamento. Você vende em 60 dias e paga
fornecedor em 15. Quanto mais a empresa cresce, pior fica — crescer consome caixa. - Estoque parado. Comprar estoque tira dinheiro do caixa hoje e só vira despesa
na DRE quando a mercadoria é vendida. - Amortização de empréstimo. Só os juros entram na DRE. O principal sai do
caixa sem aparecer no resultado. - Compra de equipamento. A saída é integral e imediata; na DRE, o custo aparece
diluído em depreciação ao longo de anos. - Retirada dos sócios acima do lucro. Reduz o caixa sem reduzir o resultado.
- Inadimplência. A venda foi reconhecida, o dinheiro não veio.
Quando não souber em qual relatório algo aparece, pergunte: isso é desempenho ou é
dinheiro? Compra de máquina é dinheiro saindo, não desempenho — vai para o caixa. Venda a
prazo é desempenho, não dinheiro — vai para a DRE. Funciona quase sempre.
Como usar os dois juntos
A rotina que funciona para uma empresa pequena não precisa ser sofisticada:
- Toda semana — olhe o fluxo de caixa projetado para as próximas quatro a oito
semanas. É o que evita o susto de descobrir na véspera que falta dinheiro para a folha. - Todo mês — leia a DRE e compare com o mês anterior. É onde aparecem margem
caindo, despesa fixa crescendo e produto que dá prejuízo. - Todo trimestre — cruze os dois. Se o lucro acumulado não virou caixa, procure
em qual das seis causas acima ele ficou preso.
A DRE explica se o negócio funciona. O fluxo de caixa determina se ele sobrevive até o mês que
vem. É por isso que empresa lucrativa fecha as portas: o segundo relatório venceu a discussão
antes de o primeiro ser lido.
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